O relógio está a contar...

Arranja tempo, porque se há algo que algum dia pedirás será isso. Arranja-o, e encara-o com desejos despidos de hesitações e disfarces. Coloca-os nús e desprovidos de medo na tua vida. Não penses somente, escreve-los, grita-os, edifica-os... faz das tuas mãos a obra, o desejo, e corre, atrás daquilo que mais ambicionas na vida, aquilo que anseias, desde que te lembras, desde que te lembras de sonhar e de tornares num ser singular. E se fizeres muita questão que tal aconteça, acredita, isso acontece. As tuas mãos irão assimilá-lo e não tratarão dessas tuas ideias como algo supérfluo, como um capricho, mas sim como uma real necessidade do teu ser, que respira nas entranhas, que pulsa na pele. Trata a vida por tu e ela retribuir-te-á o mesmo amor.




Sugestão

A humildade de assumir que não temos uma conjectura que nos valha, mas que também não há vacas sagradas.


Questões relativas ao tempo

Existe uma espécie de sentença na vida, algo inevitável, e que não deixa margens para dúvidas: a vida resume-se a sucessivas despedidas, sem o consentimento do adeus. Quando se experimenta viver, experimenta-se uma encadeamento não premonitório de abandonos. Abandonamos a nossa infância, os nossos pais, a nossa segurança e conforto, e somos incapazes de delimitar o momento em que isso ocorre. Talvez, tenha sido no dia, em que entrei para a Universidade, ou no dia em que ganhei o meu ordenado, talvez tenha sido. Mas parece-me que não, acredito que tudo tem um historial que se arrasta no tempo. Nada é imóvel! Tudo é dinâmico! Nada pára para te conceder despedidas, nada pára ao ponto de perceberes que algo já "acabou" e que um novo ciclo "começou"! A ida para a universidade, o primeiro salário, são meras referências, não são a consumação de nada, aliás, os dias, as horas, são pequenos nadas. Tudo se afigura como algo extensivo e contínuo, mas que se precipita ao longo da vida em pequenos acontecimentos, que dado o seu espectáculo, sublinham e revelam com maior evidência as "coisas da vida".
Isto, para vos dizer, que de facto, tudo se dá em  pequenos saltos, numa espécie de fragmentos de vida, que não se esperam, que simplesmente, acontecem, segundo o que fazemos dia-a-dia. O grande remédio universal para tudo, é o trabalho, é a realização. E devemos sempre trabalhar em ordem a sabermos que fomos fiel ao que queríamos. Em ordem a não nos arrependermos de ter deixado algo por dizer ou algo por fazer. Acima de tudo, devemos saber que somos dotados de espírito, de energia, de agilidade de pensamento, para trabalhar... não em direcção à morte, mas à vida!



Preliminares de 2013


Que  não se pode fazer tudo de uma assentada? Sim, talvez não se possa, mas por favor, que se faça alguma coisa!

Verifico todos os dias da minha vida, mais um grupo de pessoas, que se sente vergada pelo seu governo, e que projectam o seu futuro longe de horizontes portugueses. Cada um com a sua história, mas todos com o mesmo traço comum: a falta de trabalho - e reparem, que não uso o termo emprego, porque esse já é impensável - e a falta de perspectivas de realização pessoal e colectiva.

A emigração é a mais autêntica lição deste "desgoverno" de que padecemos. É resultado, do bloqueio de um caminho, que todos os dias retira dignidade aos portugueses; é expressão do colapso da economia ; da destruição dos direitos laborais elementares; da degradação de uma democracia e de um espírito pátrio olvido.

O mais assombroso desta realidade, é que se entende, que o empobrecimento do país, não é um mero mal efémero para fazer face a uma crise. A todos os níveis e todos os dias, vai-se instalando em Portugal, um modelo de vida civilizacional! E o que experenciamos agora, são meros preliminares de uma tendência profunda de um modelo social baseado no assalto do espólio dos portugueses, daquilo que eles têm, mas acima de tudo, daquilo que são!

Não tenhamos dúvidas, para 2013, devemos (MESMO) desejar não adoecer acima das nossas possibilidades;  não estar condenados a nenhuma condição social; e desejar ter garantias de que possamos crescer e envelhecer condignamente.

Contudo, também acredito que por isto, e para além disto, necessitamos de uma forma distinta de entender o mundo. Tomar o respeito pelo outro como parte da nossa própria consciência! Que seja esta a nossa insurreição à actual conjuntura! Talvez assim se pudesse mudar algo! Portanto, em 2013, desejo que amem. Mais do que nunca: amem! Amem as pessoas! Amem a vida!

"Amor como em casa"

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Do Pina, "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

"Essa é a grandeza do ser humano!"


Guernica, Picasso
As consciências sopram onde querem. E há consciências que graças a Deus, não se confinam a capelinhas, beatices e politiquices em geral. Pessoas que sabem que a sua obra fala por si. Pessoas com bom senso. E é o bom senso que deve imperar. Em tempos de ultra-inter-supra necessidade de obras, de concretizações, de factos, o dizer-por-que-quero-dizer tem menos valor que o silêncio. Na vida, não podemos viver de intencionalidades inócuas. Não nos iludemos com as palavras. Já sabemos que as contaminamos com os tiques do nosso egoísmo. Agora, as obras... criam coisas, efectivam mudanças, contrariam o status quo, negam e transformam. Aquilo que é vigente tende sempre a enraizar-se, a padecer de uma espécie de autoridade. Mas reparem, na vida, quando nos referimos ao que está, nada existe absolutamente, a menos que o desejemos assim. A fatalidade da imobilidade será a nossa própria fatalidade - absorvidos pelo que não queremos e pelo que não consideramos certo, viveremos num tremendo inferno. Providenciem-se de coragem, de bom-senso, de respeito por vocês mesmos, por aquilo que são! E ajam!  Roam-se de escrúpulos por cada vez em que não agiram! Por cada vez em que não agiram de forma rigorosa e apaixonadamente! Honestamente, muitas vezes, o "medo que temiam" pode cumprir-se. E sem dúvida, muitas vezes o que realizaram será aquém. O esforço e a exaustão inexorável irá parecer-vos, também maioritariamente, em vão. E daí? Se tens essa inquietação, se ela permanece em ti, é porque flui de uma força decorrente de evidência daquilo que deve ser tornado real. Nunca se esqueçam: estão vivos! E que essa certeza seja a força  para continuar, num labor que é humano, e por isso, imperfeito! O interesse real da vida está em pensar no mais justo e em agir em conformidade, independentemente das prospectivas ínfimas de relevância e notoriedade que terá. É fazê-lo porque é o que tem que ser feito! Porque como dizia o António Manuel Pina: "Essa é a grandeza do ser humano!". A grande dignidade da vida, reside na plena consciência que fizemos por nos cumprirmos. Essa paz não é dada. Conquista-se!
A poesia vai acabar - Manuel António Pina (1943-2012)

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta 
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —


Do Livro - "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde" (1974)
Vivemos num mundo de pouca luz, com pouca lucidez, com um tremendo enfraquecimento da noção de futuro e com uma lógica que parece banir a esperança para o domínio da piada. Reparemos no contexto em que Portugal se encontra. Perante tempos difíceis surge-nos o ministro das finanças a exaltar o esplêndido povo português, culmina ainda, a sua distinção dizendo que: somos o melhor povo do mundo. Ora se somos o melhor povo do mundo, somo-lo do ponto de vista económico e no domínio humano. Faz, portanto todo o sentido, um sistema de motivação de emigração, para que o que é nacional (que é bom, aliás o melhor!), seja transaccionável. Não admira que desta forma, Portugal não tenha qualquer futuro. Portugal são os portugueses! Como se pode ser incoerente a este ponto? Como se pode usar esta demagogia ultrajante com os portugueses? Quando constato a realidade em que vivemos, é perceptível o elevado expoente de homens consumidos pelo egocentrismo e pela política de despreocupação. Agora, quando vejo os que "nos governam", alegarem poesias patrióticas e, simultaneamente, apelarem à "nossa" exportação, o que sinto é um tremendo medo do futuro. Um tremendo medo do que o nosso país se pode tornar. É triste enquanto homens, sentirmos que não podemos crescer no nosso lar. Sentir que todo o nosso desenvolvimento humano e social terá que ser noutra pátria. E não posso imaginar maior tristeza, que a privação de nos fazermos homens portugueses em Portugal. Porque não passa só por deixar o país, acarreta um todo retrocesso civilizacional e familiar. Longe da família. Longe de podermos partilhar a nossa vida com os nossos. Que retrato será o de Portugal? O de um país entregue a um governo que num horizonte longínquo sabe que somos o melhor povo do mundo, mas que permite que a identidade deste se dilua? Escrevo com inteira franqueza e desprazer com o actual governo, para mostrar que estou indignada, e que não quero ser o melhor povo, quero ser o melhor país, porque ele existirá! O carácter medíocre do actual governo é repudiante, e a cada dia que passa, cada vez mais se desresponsabilizam da sua tarefa de salvar a Nação. Não atentam às dificuldades do seu povo. Não surgem como um quadro de referência na aplicação da justiça. Não reconhecem os direitos e a dignidade intrínseca de cada português. Gostava seriamente de ver, um governo com escrúpulos, capaz de demonstrar trabalho e obras, capaz de se desgastar sem poupar energias, tempo e meios para recompor o País. Capaz de dizer não a tudo o que possa conduzir a uma família a não ter pão. Capaz de dizer não a tudo o que possa conduzir Portugal, a um país sem futuro.

Oremos

"Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima com o poder, é, quase sempre, um perigo. 
Oremos. 
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa."

Alexandre O'Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

Lucidez apagada



Existe um tremendo enfraquecimento das nossas certezas morais e intelectuais. As pessoas estão confusas na distinção entre o bem e o mal, ou o que é certo e errado. A dificuldade em fazer tal discriminação coexiste com a perda de um árbitro moral, e portanto com a falência de um guardião da verdade moral, ou melhor, com o desacrédito na existência de uma só verdade, de uma só justiça e portanto de uma só ética moral nas nossas vidas. A ideia de que não existe uma verdade é um lugar-comum na sociedade do século XXI, e rapidamente esta crescente tendência se configura numa concepção libertarista baseada na propriedade de si mesmo. O problema reside numa pobreza absoluta de compreensão de que o bem-comum, não é castrador da “nossa propriedade”, isto é, a vida “está aí” para a construirmos, para fazermos as nossas próprias escolhas, para nos desenvolvermos e para assumir as responsabilidades que advêm das nossas acções, mas não como seres isolados do mundo. O reconhecimento de que somos livres pressupõe, como todos nós já ouvimos dizer, responsabilidade, e esta responsabilidade diz respeito a todos os que nos rodeiam. A verdade é que consumidos pelo jugo de sensações fugazes e egoístas, a falência de uma felicidade futura é inevitável. Talvez, agora, eclipsados pelo caos das emoções não percebamos que estas põem em causa o mais sentido profundo da vida e que, com isto, nos tornaremos mas pobres. Mas, entretanto, por nós mesmos, aperceber-nos-emos de que, aparentemente sem razões para nos sentirmos vazios, sentiremos! Longe das amarras da responsabilidade, encontraremos algo muito mais atroz: a incompreensão do porquê de sentirmos (ainda) um sofrimento humano. O drama que a determinado prazo se irrompe na vida de qualquer um de nós é que nada nesta vida tem uma compreensão absoluta, e com semelhante rudez ou simplicidade, a lucidez deste facto figura-se como um terrível despertar para a reavaliação dos nossos próprios valores. Existe uma linha muito ténue entre bem ou mal, verdade ou pobreza absoluta, e é natural que todos nós nos sintamos muito mais vezes atraídos pelo fácil, porque somos humanos, ora… demasiado humanos. E se a lucidez é uma graça insuportável no que diz respeito à nossa interior reavaliação, o choque com a realidade é-o superlativamente. A esperteza mundana como uma virtude, a relativização como um valor, os artíficios como um modus operandi, a política como o sine qua non para sobreviver, são o verdadeiro inferno para o homem que se quer deixar guiar pelo espírito da divina sabedoria. Mas onde o espírito habita, coabita a coragem, a doçura, a iluminação e a santa liberdade. Porque não há maior conforto do que o de sermos fiéis à nossa humanidade.