também nos magoam. mesmo nos piores dias.
também nos desiludem.
também fingem.
também conseguem ser maus e supérfulos.
às vezes não pensam nem sonham o que nos vai dentro da alma. porque se soubessem não imaginariam o quanto doi à noite não conseguir dormir, ou o que custa dobrar cada esquina com o coração nas mãos. nem sequer sabem o que é ter um dia mau, do princípio ao fim. jamais vão sentir o travo sabor das lembranças que morrem esquecidas
também nos desiludem.
também fingem.
também conseguem ser maus e supérfulos.
às vezes não pensam nem sonham o que nos vai dentro da alma. porque se soubessem não imaginariam o quanto doi à noite não conseguir dormir, ou o que custa dobrar cada esquina com o coração nas mãos. nem sequer sabem o que é ter um dia mau, do princípio ao fim. jamais vão sentir o travo sabor das lembranças que morrem esquecidas
às vezes, somos os únicos com este peso na alma.
sou uma pessoa que nunca está satisfeita totalmente. há sempre um vazio a preencher. vivo constantemente numa corda bamba vertiginosa. coração nas mãos, alma desfeita. um dia haverá uma forma de nos esquecermos de tudo. de olharmos para sítios e não nos lembrarmos de pessoas importantes que por um motivo ou por outro já não existem nas nossas vidas. haverá forma de camuflar a tristeza. limpar as lágrimas apenas em momentos perfeitos.
Cheguei a casa de olhar vazio. Carregado. Já pensaram o que é ter o olhar vazio? Não é somente o olhar que está vazio, sem sentido, sem qualquer tipo de intensidade. É a alma também.
Cheguei a casa de olhar vazio e emanava o mesmo perfume de sempre, não me encontrava há muito tempo. Não pelo menos em frente ao espelho de olhar. Estava diferente - vazio. Queria perguntar-me se estava sol lá fora, ou se estava tudo bem desde a última vez, se ainda gostava de castanhas e jeropiga em Novembro, ou se mais uma vez o comboio se tinha atrasado. Mas a minha voz falhava, e qualquer banalidade que lhe pudesse propôr tinha-se tornado em algo demasiado precioso para ser proferido. Eu estava linda, um vestido muito curto, as mãos leves, o cabelo solto. o olhar vazio, sim. o olhar continuava vazio, e eu não conseguia enchê-lo, nem falar.
decorarei o meu leito de morte com todas as recordações possíveis. todos os sorrisos abafados, todos os beijos tímidos, todos os trilhos em que caminhámos, todos os finais de tarde entrelaçados, todas as promessas, todos os sonhos tornados em realidade, todas as pontas desatadas, todas as horas em que enchemos o coração de medo para sobreviver ao desconhecido. irei pintálo em azul turquesa, pois faz-me lembrar o céu, apesar de eu nunca lá ter estado, e vou envolve-lo num manto de prata que roubei ao luar na noite que passou. decorá-lo-ei, frente aos meus olhos de terra, para me poder felicitar e saber, para todo o sempre, que fui alguém que passei por aqui, deixei uma pegada, uma alma e..vivi.
É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor. (...)
Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.
Kundera, M. in A Insustentável Leveza do Ser
qual o (real) peso da vida? Será este decidido por nós? Será essa pesagem da nossa inteira responsabilidades ou outros factores são, para si, absolutamente determinantes? Qual a melhor opção: uma existência levemente suportável ou uma existência mais pesada? Uma existência com o facilitismo da leveza ou uma existência com um peso responsabilizador? Que existência? Qual a sua efectiva definição? Poderá haver uma definição?
As despedidas são a parte pior dos finalmentes. Somos passarinhos quase recém-nascidos que chegou a hora de voar sozinhos. Acabou a confusão, as gargalhadas de fundo, as mangas arregaçadas, os dedos pintados, as manchas malditas na roupa. Acabou. Abandonámos território de braços suspensos, com a memória cheia de experiências, de momentos bons, momentos maus, de descobertas, de histórias, de vidas entrelaçadas. Não queremos voltar mas também não queriamos partir.
Hoje sinto por dentro todo o silêncio do mundo.
Seremos para sempre crianças, com a mesma espontaneidade irreflexiva e o mesmo turbilhão de emoções a correr por baixo da pele das nossas mãos. um não ao nunca mais aturar idiotas e pessoas sem carácter. É este o contentamento de sermos crianças eternas, de sofrermos do complexo de peter pan, de tocar às campainhas e fugir depois, em que o intuito não era o de obrigar as pessoas a irem à porta, era a adrenalina de não sermos apanhados, de sermos só nós mas felizes assim.. Crianças. Jovens. Sempre. Ir dançar para uma discoteca até ao amanhecer. fase de rebeldia. fumar um cigarro sentada no meio da estrada. beijar e abraçar as pessoas mais importantes da minha vida. Temos de fazer mais coisas assim. agora e sempre. Viver loucos pela loucura, sabendo que somos amados de verdade.
Hoje só os papéis continuam a ser os mesmos, as pessoas não. As pessoas estão muito diferentes, quase não se reconhecem, é uma confusão. Acontecem coisas a mais em tempos cada vez mais breves. É arriscado pensar o que quer que seja sobre quem quer que seja, quanto mais dizê-lo. O tempo desfoca qualque juízo mal é proferido, quer seja moral ou estético. As caras transmudam-se pela noite e os bares são uma abstracção onde se cruzam indivíduos múltiplos. Os sentimentos escasseiam. É preciso sentir coisas e é cada vez mais difícil. Há muita gente que desiste, desaparece, muda de sítio. Nem os vícios já são puros. Os papéis continuam os mesmos, as pessoas não.
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