daqui a precisamente 4 dias estaremos entregues à amarga rotina. não sei porque falo dos hábitos de uma forma extremista e pouco alegre, mas é assim que eu me entrego a ela (rotina) nos primeiros dias - de forma inacabada. canso-me facilmente das coisas que me rodeiam. sei que pode ser um pouco egoísta para quem me vê e tenta aceitar-me, mas a verdade é que me canso. canso-me da monotonia, dos dias iguais a tantos outros, da chuva, da conversa por obrigação e das vozes arrastadas de manhã. canso-me de pessoas sem objectivos, dos encontrões de ombro nas ruas, das filas de almoço, das estações de rádio, do jantar e dos debates políticos inconscientes. canso-me da guerra, da fome no mundo e das catástrofes naturais. canso-me da solidão, da paisagem que vejo todos os dias pela janela do autocarro, dos antipáticos e dos pouco cavalheiros. canso-me do mesmo cheiro a perfume, do meu perfume cravado na pele, das minhas manias e etiquetas. canso-me. canso-me. canso-me deste meu ser em rotina.
já sentis-te cócegas na alma, um desejo louco de ultrapassar limites, e de defini-los novamente. em parte porque és jovem, e porque todos nós queremos atingir a grandeza, viver nem que seja por um instante na certeza de que superei um medo. o medo. este é, de facto o nosso pior rumo - tarado e perverso. compadecemo-nos, perante ele, a ser, a sua carcaça, entregando-nos a priori, como vencidos. não compreendo a razão deste massivo temor. é o temer a existência do medo, que o fecunda. estou a caminho -  na minha vida, e encontro-me agora numa selva tenebrosa. porque sou falível, e errei. não vos saberei dizer como resistir. mas, suponho, que somente as lembranças das falhas é que façam ressurgir o medo. não tão amargo como a morte. porque ainda respiras. acalma-te, concede repouso ao teu corpo fatigado e retoma o caminho, mantendo, constante e plenamente o pé firmado, muda o teu desígnio. para te libertar desse temor, dir-te-ei, que se tens consciência que és, não te prives da tua própria vida. a tua alma não pode ser tomada pela cobardia, que muitas vezes, tanto nos oprime, e que tanto o homem transfigura e extravia como uma desculpa. porque te deténs? e porque não te armas de ardor e de coragem?
a palavra liberdade que se se profere complexa e pretensiosamente, pode ser obscena. pode ser nua, fria e não ter nada para nos oferecer. e assim o seu cheiro orgulhoso, que se faz deixar passar, atrai-nos de um modo que não sei replicar palavras. imponente, majestosa, na beirinha do horizonte, capaz de desafiar os séculos e os milénios. cumpre-se - não se cumpre. transfigurada em todas as línguas havidas e por haver, avança perante nós, consentindo que não terminássemos. A vida dos homens, é a vida dos seus desentendimentos com a liberdade: nem ela nos suporta, nem nós a conquistamos.
Não me quero deparar com incrédulos. Eu não quero controlar o desejo de mudar o mundo. Eu quero pessoas que se deixem consumir pela vontade, e que não temam, com os pés acentes no chão, escorregar e cair comigo. Pregamos avidamente o dogma imbatível da liberdade, a ausência de posse e de agrilhoamento em prol do querer que permeia o mundo dos libertinos. Porém no fundo, fugimos. Pensamos que jamais conseguiremos. E mal dizemos a vida. Mas reparem quão frívola ela é, quão imprevisível. Contudo, caminha, sente o teu corpo a tomar-se de certezas, o temor imponente no teu coração, deslumbra-te com o mundo. O teu espírito  habita as nuvens, tens em ti a força da vida, dos homens que respiram sem fim. A seu tempo quero estar quando conseguirmos, por sabermos que pensámos que era impossível.
Somos comuns, vulgares com um medo infindável de transparecer a essência da qual somos dotados.
Hoje dou por mim a pensar de onde radica este meu desejo de ser diferente, de pensar, de querer crescer. Nada disto foi premeditado, não escolhi pôr tudo em causa, ser insatisfeita e de viver em pleno conflito, constantemente. O natural é que todos sejamos de facto assim, eu apenas, não suprimi essa vontade. Sou pretensiosa, ambiciono a felicidade, quero fazer, quero ser, quero viver. Posso falhar. Mas pior que isso, é a purga de não o ter tentado. Quero ser melhor. E se é este o meu ímpeto, se é este meu estado interior de agonia, então eu irei, eu chegarei mais longe, porque quero saber quando estarei a um passo do coração da vida.
não evito o coração aos sobressaltos, a paixão avassaladora pelos pequenos pormenores, os silêncios nas palavras de ouro e as esperas intermináveis.
volto porque me incitam as palavras e todo o sentimento que ressoa aqui dentro. aqui, onde sempre guardo um bálsamo energético e pulsante, que bombeia sangue e inquietação. volto porque a ausência sabe-me a sal e, ainda que o regresso seja embebido em água do mar, saceia, porque "sou", porque "estou", neste percurso de presentes constantes e de hiatos fantásticos que me põem à disposição da vida. volto porque não sei viver sem! volto para alimentar este vício que me norteia por entre os caminhos que tomo, e que revelam uma sede incrivelmente sôfrega e que me faz embriagar-me na sobriedade. volto porque resido nesta casa de tantos fenónemos, de tantas lembranças, de tantos disfarces e "robertos", de tantos vãos do meu coração. volto para poder respirar com a simplicidade de outrora, desafogando os sonhos, os amores e os receios. volto para dizer que fui, como tantas vezes, e que voltei, como tantas outras, para mais um presente de ventos corriqueiros, para desgastarem o meu corpo, preso neste tempo, que se arrasta e que se estende diante dos nossos olhos. volto para não ser parte desta multidão de "cães", "cadáveres adiados", "cabeças a rolar pelo chão" e de uma "mocidade pálida". volto para não ficar inerte, eu não careço de mobilidade, tenho os pés assentes no chão. e volto para aprender: o tempo é móvel, não posso viver um presente, retomando sucessivamente ao passado. tudo flui, nada permanece o mesmo... portanto não estamos a horas de nos compadecermos. eu volto porque não estou satisfeita!

parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. já ninguém quer viver um amor impossível. já ninguém aceita amar sem uma razão. quem quererá, afinal, um amor que nos roube a metade mais selvagem e inocente de nós? quem quererá, um amor puro, estúpido, cego e doente?
passamos demasiado tempo a desejar alguém do nosso lado, não por mera companhia, mas por uma série de pequenas dependências que trazem algum sentido às conquistas e às perdas. ansiamos alguém com quem dividir as experiências quotidianas, alguém para desabafar sobre qualquer coisa, alguém com quem compartilhar palavras e sentimentos e sentir alguma reciprocidade. essas pessoas aparecem. algumas por algum tempo, outras pelo sempre que durou, mas nunca numa constância suficiente a nos fazer acreditar que possam ser insubstituíveis. há aquelas que fluentemente passam, há as que passam e deixam um tanto, mas não há aquelas que fiquem por completo dentro de nós como deveria ser. os encontros começam a ser tão relativos, que o mais fácil, o mais credível, é que estamos talhados para os desencontros. e de tal forma que nos imerge uma imensidão de desespero, de desistência. porém, se hoje eu vos puder dar um conselho eu digo-vos, para nunca desistirem de encontrar o amor nas pessoas, nem de, sobretudo, deixarem de doar o amor sincero que vem de dentro. por mais que doa, eu digo-vos: amem!