Não me perguntes, porque nada sei
Da vida,
Nem do amor,
Nem de Deus,
Nem da morte.
Vivo,
Amo,
Acredito sem crer,
E morro, antecipadamente
Ressuscitando.
O resto são palavras
Que decorei
De tanto as ouvir.
E a palavra
É o orgulho do silêncio envergonhado.
Num tempo de ponteiros, agendado,
Sem nada perguntar,
Vê, sem tempo, o que vês
Acontecer.
E na minha mudez
Aprende a adivinhar
O que de mim não possas entender.
Miguel Torga

Falhei. A chuva da madrugada fez-me acordar, estendi as mãos e o pulso era esporádico como uma gota de orvalho. Enroscei-me no meu canto, juntando os joelhos com o peito, e assim perpetuei. Como uma pedra. Supondo que como tal, não se prendia a mim a responsabilidade, a consciência, a culpa. No entanto, desesperei, dei punhadas no peito e na cabeça, e senti a minha alma a corroer-se, faltavam-me as palavras que a tinham inaugurado. Não conseguia dizer quem sou e nem dei com as palavras que o melhor explicassem. Falhei. Por baixo do que exponho de mim, há um "eu" que calo. Qual deles o mais mudo? A dúvida é o privilégio de quem viveu muito. Será por isso que não consigo convencer-me a aceitar como certezas o que para mim mais se parece a falsidades. Quem sou eu? É mais do que óbvio. As dúvidas, as suspeitas, as perplexidades, as transgressões, os recuos, estão cá. No final errantes somos e pela estrada andamos. Todos, tanto os sábios como os ignorantes, os santos como os pecadores. É inevitável, fatal como a decrepitude. E a vida. Agora a língua essa é que é bífida. O mesmo é dizer, traiçoeira, aleivosa, desleal, pérfida e outras lindezas equivalentes.
Equilibrar-nos-emos como loucos, como justos, nesta calçada de perdões e lamentos. Cheios de esperança, é assim que temos lidado com a vida. Aguçamos os sentidos e estendemos os dedos. Dedos livres, tão livres que parecem pequenos farrapos de uma alma que se esfuma. Dedos livres que ondulam com um amor metódico, melódico, complexo, irremediavelmente e erradamente irreversível e irreparável. Estes dedos são o teu equilíbrio, são as tuas raízes. 
no ano passado ansiava por realizar sonhos. este ano, por esta altura, sei que ainda não os realizei. no próximo ano espero não estar a dormir.
 é sofrego o olhar
violento o espasmo do real.
deixem-me nascer,
que preciso de me reinventar!
que não posso com o nosso desgosto,
e a pena de todos os outros.

não deixes tudo ficar como está, eu sei que precisas de um mundo novo. sei que sentes que viverás perpetuamente entre as mesmas paredes. no entanto, digo-te, sinceramente, que vale a pena lutar pelos nossos desejos. encarar de frente as coisas boas e desejáveis e fixar o olhar sobre as coisas desagradáveis e que nos afligem constantemente. isto porque saberás pelo menos que não vives uma farsa, mas que vives feliz perante as incompreensões, falhas e dificuldades. o objectivo é ousares. atreveres-te a estar bem, nem que isso dependa do facto de ultrapassares limites que são reprováveis para ti. estas não podem suprimir a tua felicidade. tu pertences a este mundo, sabes quem és, este tem que ser o teu verdadeiro ímpeto. deslumbra-te com o caminho bifurcado, e segue em frente, segue. não deixes que a rotina que todos nós conhecemos te consuma. o eco do teu mundo não te pode deixar exasperada. não há nada mais deprimente, que a irrevogável certeza de que podias ter alterado o teu mundo, que podias ter cumprido os teus desejos. não fiques expectante. sobressalta-te, tu consegues, e conseguirás o que pretendes de ti. existe sempre magia no teu trilho.
Atreve-te... a pensares por ti próprio e rejeita tudo o que seja alheio!
Desprende-te... das receitas, das fórmulas, preceitos, ditames, dogmas, dos clichés, das retóricas vazias de sentido!
Destrói... a cobardia e o medo que te impedem de dar um passo em frente...ou dois
Afasta... a sonolência epidémica que te corrompe ...
Liberta-te... dos grilhões da cegueira que te impedem de veres com os olhos do pensamento!
Coíbe-te... de dares assentimento à opinião irreflectida da maioria só porque é a maioria?
Arrisca... e sai da comodidade em que sempre viveste e pior, sem te dares conta!
Assume... a coragem de te servires do teu próprio entendimento!
Encara... a tarefa inalienável de compreenderes em vez de contemplares!
Resiste... ao fácil, ao óbvio, ao dado, ao cómodo, ao vil...
Luta! Persiste!
Sente a grandeza de uma alma que se mantém firme na procura incessante da sabedoria!
Ana Rita Raposo
entre os meus dias alguns são de facto para sempre. sobre eles anoto, nitidamente, a memória das falhas, onde sabes que erras e lamentas... não lamentas o erro em si mesmo, porque sabes que o homem é falível, e crescerás, mas lamentas a decepção perante os que te rodeiam, como se tivesses algo a provar-lhes para sentires que respiras. mas não precisas, não te gastes em constantes provações aos outros daquilo que podes ser ou que és. prova a ti mesmo, se errares, não peças desculpa, não te dês por perdido ao mundo, porque da próxima, não cometerás o mesmo, não cairás no mesmo buraco, e da próxima sobreviverás. entre os meus dias alguns são de facto para sempre. sobre eles anoto cuidadosamente os desejos, a intensidade da vida. é uma questão de intensidade. só assim nos poderá voltar a florir o coração e a sensação de ascenso repete-se.
Morre lentamente
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.

Martha Medeiros


Os dias de sol, os dias de chuva. A nostalgia do vivido e antes sonhado. A dor do erro, o arrepio, o remorso e o vómito. A frustração, os desejos, a água na boca. O cheiro do verão e o calor do Inverno. As músicas que vêm com o vento, a sensação de desespero, o esquecimento, a apatia e crescer. A janela aberta, a efémera vida, a decrepitude do chão. O nevoeiro basso, as dúvidas. A vergonha, as coisas que querias explicar mas que não têm explicação. Tudo o que tenho para dizer e não disse.