arranja tempo, porque se algo que algum dia pedirás será isso. arranja-o, e encara-o com desejos despidos de hesitações e disfarces. coloca-os nús e desprovidos de medo na tua vida. não penses, somente, escreve-los, grita-os, desenha-os... se fores tu, a tua "tábua rasa", faz das tuas mãos a obra, o desejo, e corre, atrás daquilo que mais ambicionas na vida, aquilo que anseias, desde que te lembras, desde que te lembras de sonhar e de tornares num ser singular. e se fizeres muita questão que tal aconteça, acredita, isso acontece. as tuas mãos irão  assimilá-lo e não tratarão dessas tuas ideias como algo supérfluo, como um capricho, mas sim como uma real necessidade do teu ser, que respira nas entranhas, que pulsa na pele. trata a vida por tu e ela retribuir-te à o mesmo amor.
Corremos, corremos, e quem nos apanha?
Corro tão rápido, tão confusamente, em delírio. Viro em todas as direcções, se a anterior não for a certa, voltar a trás nunca o farei. Talvez seja pelo orgulho louco que me percorre as veias ou simplesmente porque me é impedido por uma voz gritante, mas silenciosa, que mata lentamente. Maldita. E tu vida, olhar-te-ei de frente, saberei apertar-te as mãos com a maior das forças, vou sentir a alma revolvida, mas mesmo assim vou mergulhar no teu mar.  
Amigos, quando temos um trilho enorme pela frente encolhemos os ombros, fintamos o seu ponto máximo, mas colocamos mãos à obra. Talvez um dia lá chegaremos, e nesse preciso momento já teremos outro para atingir, e depois outro, mais outro, outro e outro. Pode passar-nos um comboio por cima, mas continuamos vivos. É isso que interessa, não é?

Hoje não consegui deixar de pensar no meu Avô. Curioso. O tempo em que para mim ele partiu foi longínquo, mas não tão longínquo assim para me poder esqueçer do seu rosto, do seu toque exausto na minha face de menina de sonhos. Chamava-se João, um nome tão puro e belo como o seu ser que transbordava de afectos e ternura para o futuro. Seu olhar grandioso, sobre os que passavam perante aquelas grandes pérolas de um mar de África, cobria com saudade as promessas que a vida lhe trazia e, por vezes, viajando sem dizer nada a ninguém seguia para um viver que ficou para trás, para uma terra em que foi feliz.
Havia tardes, senão a maioria delas, em que me sentava aninhada no seu colo esperando sempre ouvir uma das muitas histórias que me tinha para contar, antes de partir para casa. Uma fábula ou realidade que me fizesse voar para bem longe, apenas com aquela figura marcada que me fazia de aconchego, com aquela mão calejada de vivências, de contos cintilantes, de paz existencial. Somente os dois, flutuando entre as nuvens, tocando o céu e sorrindo com paixão. Sua tez morena em contraste com o cinza dos seus poucos cabelos que herdei, estão presentes na minha memória e eu sei que para sempre. Tenho saudades dele confesso, por muito pouco tempo que o tivesse tido, sinto falta do seu abafo no meu cabelo, das mãos dadas, dos lanches tardios, da partilha que desejei ter em jovem. Sei que não podes voltar para me veres, mas eu não me importo, compreendo até. Tu não podes mesmo que queiras. Por isso esperarei por ti,quando fôr possível, num devaneio de madrugada, numa lua cheia de Verão ou numa esquina do passado. Não faz mal porque eu sei que olhas para mim de uma maneira ou de outra, aí em cima, no caminho das estrelas.

O povo português é um país que deriva no mar dos seus antepassados, vivendo agarrados a um passado que foi, mas que porém, querem retomar. O problema é que esta intemporalidade e paragem no tempo é imóvel e carece de dinheiro e vontade. A ideia do que fomos assombra-nos o presente, quando, no entanto, deveria vigorar como motor de ascensão a um futuro. António Barreto, numa das suas críticas, referia a insatisfação implícita, mas que insatisfação é esta que não nos impele para a frente, que não nos conduz a fazer coisas? O homem é um ser pensante e um ser fazedor de coisas, e assim o terá que ser também o português.
Esta insatisfação, não passa de falácias, de verbos conjugados negativamente, de um pessimismo que se compadece ao romantismo velho.
Mas que povo português é este? Procuram-se heróis mas encontram-se políticos manipulados, vaidosos, empertigados, que nos seus vivos discursos nos impelem a soltar bravos no ar, como algo monótomo e impulsivo, mas não, e nunca racional.
Como dizia procuram-se heróis, e nós próprios portugueses, gostamos, sabiamente, de retorquir quais meticulosas medidas são necessárias tomar para levantar Portugal. No entanto, quantos, que o pretendiam tornar realidade, não ficaram ofuscados pelo dinheiro, pela corja engaiolada sobre os pilares sombrios do dinheiro!
E que vida, que vida esta? Nada se faz, nada se é, mas tudo se lamuria aos céus, esperando perpétuamente por uma Santa do Rendimento ou pelo Santo António da Boa Ajuda. Com efeito, parece que continuamos num país devoto e tradicional, mas que não confia em si, não luta por si, que padece no tempo e que já não tem príncipio, meio nem fim. 
os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora,
mas a gota de água treme e brilha,
não uses as unhas senão nas linhas mais puras,
e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia
e de fogo,
e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,
e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível
contra a turva sede da matilha,
com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, árduos buracos negros:
queres apenas
aquela gota viva entre as unhas,
enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros
à procura do ouro
Herberto Helder
Nunca vi tantos sonhos juntos. Por ali, ao Deus dará, desprezados e abandonados à sorte dos primeiros anos. Esquecidos e poucas vezes reclamados. Encontrei alguns meus. Uns voltaram comigo outros disseram que já não valia a pena.
faço planos. o outro lado da ponte é sempre melhor, um outro oceano a preencher-me a vista, é sempre preferível do que aquele que conheço há dezassete anos. incerto e apetecível, são duas palavras que encaixam de modo perfeito àquilo que sinto quando desejo partir. tenho este sentimento em dias aleatórios, em deixas imprevisíveis e manhãs nebulosas. quero o outro lado que segura a ponte, uma outra estrada, um fim sem capítulo e um homem apaixonado, à minha espera.
Porquê? Por que razão, quando olhamos para trás, o que era bonito se torna, facilmente, quebradiço, revelando verdades amargas? Por que razão se tornam amargas de fel as recordações de momentos felizes de namoro, quando se descobre que o outro tinha uma amante durante todo aquele tempo? Por que não era possível ter sido feliz numa situação assim? Contudo, fomos felizes! Por vezes, quando o final é doloroso, a recordação trai a felicidade. Por que é que a felicidade só é verdadeira quando o é para sempre? Por que é que só pode ter um final doloroso quando já era doloroso, ainda que não tivéssemos consciência disso, ainda que o ignorássemos? Mas uma dor inconsciente e ignorada é uma dor?
Leiam: O Leitor de Bernhard Schlink

'Maria Helena falava pouco. Olhava, sobretudo. Olhava com uma intensidade fria, como se estivesse a atravessar um rio e se dividisse entre o perigo e o prazer. O fundo arenoso onde se recortavam peixes prateados dava-lhe aquela expressão suspensa e maravilhada; mas, de repente, o remoinho da água trazia a noção da forte corrente, e, um pouco mais, era a dúvida, um temor concentrado, a razão alertada. O rosto exprimia angústia, os olhos abriam-se mais e ganhavam uma cor cristalina.'
Augustina Bessa Luís

Se o silêncio falasse, o que diriam todas essas almas que se apregoam ao chão? que morrem de uma mudez doentia?