Há pessoas que vingam a nossa existência por serem capazes de nos transportarem para um infinito particular. Há pessoas que nos lêem o pensamento, que adivinham a nossa intimidade, que captam os nossos instintos quase ao mesmo tempo que nós. Mas há pessoas que, além disso tudo, nos podem magoar como ninguém o faria, que nos podem ferir de morte, que podem apanhar-nos a confiança e amordaçá-la.
Esta é a maior viagem da tua vida. Se olhares para trás vês todo o percurso transformar-se em apenas pequenos pontos. São assim as coisas mais importantes da vida, de um momento para o outro tornam-se nos mais simples momentos. Nos momentos irrepetíveis e efémeros. Nas vidas entrelaçadas e inimagináveis e na fugacidade de todos os sorrisos. Nas gargalhadas, nos abraços inebriantes, na fantasia inesgotável que nos percorreu os segundos, nas histórias que ficam gravadas em nós. Balanças as pernas de entusiasmo ou será de ansiedade? Os olhos irradiam ternura, sonhos. Sobretudo sonhos. Pensas agora em todas as palavras de encorajamento que ouviste durante todos os anos de existência, desde o dia em que deste os primeiros passos, ao dia em que não havia mais nada a fazer, senão decidires esquecer o que tu pensavas ser o amor da tua vida.... gastaste tudo o que tinhas a gastar, fizeste coisas impensáveis, correste riscos e passaste noites em branco, sonhaste acordada, abraçaste, choraste, e agora há de novo um horizonte lá ao fundo. Esta viagem de que todos falam só o teu coração conhece de cor, só os teus olhos a saboreiam, só tu a saberás viver. Todos os dias são as maiores viagens da tua vida.
Hoje, aprendi que nunca se deve evitar um 'gosto muito de ti', ou um 'adoro-te'. A alma às vezes atraiçoa-nos, e o orgulho quase sempre nos prende. Mas dizermos o quanto gostamos de alguém tem uma tamanha importância que infelizmente só descobrimos depois de já não o podermos fazer.
Que interessa o lugar onde repousarão as nossas cinzas? Quando morrermos serão as palavras, os actos que falarão aos vivos amados por aquele que morre. Demitimo-nos muito deste sentimento presente de cumprir o nosso dever de viver - viver, não é somente uma declaração de presença. Estou farta desta espécie de amor de segunda (e peço desculpas, por hoje em dia, não ser mais do que isto). Exageramos nos sentimentos fracos e nos pedidos de desculpas. E esquecemo-nos que é o amor que conduz ao conhecer. O amor começa sempre antes. Dizem, ainda, alguns insípidos alguéns, coisas belas e verdadeiras, em alegorias transbordantes de imaginação, instigando o desassossego do pensamento. Porém, não os compreendemos! Estas coisas belas são sempre interrompidas pela beatice e pela pequena história da politiquice, e hoje, como já ouvi dizer, pela malabarice. Há a aflição das hierarquias do poder terreno! Que vergonha, não aceitarmos a nossa própria humanidade, buscadora incansável da justiça e da alegria. Que interessa esta mesquinhice humana? Os grandes não se desfazem em cinzas, e é isso que os pequenos poderes não perdoam, por serem e se saberem mortais, e que haverá quem lhes aponte o dedo e lhes desmascare as farsas. Mais do que isto, em tempo de pressas sôfregas, são as palavras, os actos. É através destes que seremos homens. E como homens nos faremos livres. E o amor que vive connosco, em nós, por nós, nos tornará ainda mais livres.Vê-se nos nossos olhos. Nós continuaremos a existir, porque o amor tem o dom de permanecer debaixo da pele e no brilho dos olhos de quem o guarda. Só isso se guarda: o amor e as palavras. A coragem de os viver por inteiro. O amor e as palavras exigem coragem. E nós sempre o soubemos.
perdemo-nos nos afectos que encontramos esporadicamente. no tamanho dos abraços, no conforto de um beijo, na calmaria de um olhar. um qualquer gesto com as mãos, um afago, um repouso, um apoio sincero de dedos entrelaçados e um acalentar do corpo. isto que vem da alma e jamais se diz. isto que vem de nós, dos nossos anseios, das nossas procuras. isto que eu e tu deveríamos, serenamente, todos os dias, ao entrar em contacto com os outros, sentir. é desta pele com pele que nasce a poesia do mundo. quero viver poeta, quero morrer poeta. e que assim seja.
Irremediavelmente, nenhum conhecimento é suficiente quando nos precipitamos a amar alguém.
Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nú dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade

Nada do que se passou foi importante. Não foi, eu sei que não foi. Eu assumo e já não mascaro a situação com uma fila de "mas" idiotas e desnecessários. Depois de um mês em que tudo correu mal, queria apenas não precisar de jogos, farsas, sarcasmos inúteis e ludibriantes. Não queria porque todos esses mecanismos cansam e tornam tudo ainda mais complicado do que realmente é. Quando digo que não foi importante, é porque não foi. Chega de massacres, de martírios. Não me vou submeter mais a isso. Sei das imbecilidades que já fiz, e já lidei com a catadupa de sentimentos que isso acarreta. E na verdade, somos humanos! Não é suposto sermos plenamente honestos, bons, cristãos ou outras lindezas do género. É pressuposto errarmos e termos a consciência que somos falíveis, mas perante isto, ousarmos construir um ser melhor. Por isso parem, suas malditas vozes desonestas, que provocam uma conjuntura humana que vive somente com base em aparências. Acredito que essa censura é resultado de uma busca mítica do homem em querer ser imortal, tal qual deuses na terra. Porra, não sou deusa, nem santa! Esta busca torna-nos desumanos e a questão agora já não se prende com a razão, mas com o que se sente! É preciso sentir! Irremediavelmente e irrepetivelmente. Quando morrermos, iremos todos nús, tal e qual como nascemos, desprovidos da desonestidade e ingratidão do mundo.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos, Poema em Linha Recta
há certas lembranças que se sustém no limiar do esquecimento, mas que, porém, jamais se esvaem por inteiro. entranham-se na memória e por lá constróem o emaranhado de cenas de que se serve o passado. ao longo destes anos fui como uma profeta a indicar um caminho certeiro aos seus discípulos. toquei fogo, andei sob águas profundas e voei como uma águia. chorei, caí, perdi-me e encontrei-me no fim. fui mago e bruxa das mil e uma noites. uma reencarnação do sofrimento, uma febre de entusiasmo precoce. fui tudo o que possa querer ou imaginar. estas memórias costumam traduzir alguma espécie de importância, de teor relevante, de arquivos imprescindíveis ao sustento da minha alma. presumo que é a isto que se pode chamar de eternidade: algo que fica cá dentro, imergido, conservado, embrenhado, e que nunca nos deixa. e torna-se tão bonito o seu desabrochar espontâneo, num instante de reflexão ou mesmo por uma mera distracção. são como pedacinhos de vida, fragmentos de respiração, de pulsação, de sentimento. o drama de cada um, a história em relevo, o enredo consumado. agora, olhando para trás, vejo algo mais do que um sentimento de dever cumprido, vejo também uma pessoa que já não reconheço em mim. ela ficou lá atrás, por detrás do passado, aquela velha e antiga perdida, aquela insegura de si mesma, presa a contornos de segunda e a embaraços permanentes. somos matéria em constante mutação, deixamos e recebemos. percorremos ciclos a fim de alcançarmos uma beleza, sobre a qual não há analogias suficientes. nada seria o amanhã se não fosse o ontem. e é no pretérito que busco sentido para continuar adiante, na inóspita certeza de que o caminho é para a frente. poderei ser,  uma versão melhorada daquilo que os anos me trouxeram ou me tiraram, também.