Estirpe sonhadora e louca

Repito aqui a ideia, de que enquanto homens somos intelectualmente superiores comparativamente aos animais. E esta é a verdade irrevogável! No entanto, o homem tem vindo a provar a sua inferioridade moral face às restantes criaturas.
O desafio é fazer um uso governado da razão. E creio que toda a actividade contraproducente a esta premissa se prende com a luxúria de que possuímos, de facto, razão. Contudo, factualmente não a cumprimos. Isto é, o homem é um ser pensante, e prova disso, é a capacidade de distinguir o bem do mal. Porventura, tendemos cada vez mais, para o mal, para o fácil, para o cómodo e vil.
Reparemos que esta ideia é praticamente linear e proporcional a um enfraquecimento da nossa capacidade de sonhar. E ainda que, muitos o contradigam, o sonhar é o que permite ao homem ser homem. E como tal a aspirar ao domínio do incerto, onde a capacidade de superar condições nefastas, de desvendar o desconhecido e de soltar as amarras, se torna possível.
A incapacidade de nos tornarmos loucos, aproximou-nos, ironicamente ou não, dos animais, quais seres que se limitam a reagir.
Afinal o que nos torna humanos é a nossa estirpe sonhadora e louca, e não fazemos mais nada senão sonhar. Um sonho... consiste num olhar individualizado, atento na especificidade, mas que olha na globalidade.
A decadência do sonho prende-se com diferentes questões: uma delas, e com efeito, a que é reveladora e concretizadora do sonho, é o livro.
O livro é a expressão da realização da loucura do ser humano. Afinal é da busca pela sabedoria suprema que se alimenta o indivíduo, por primazia, personalizando-se.
A sabedoria permite ao homem tornar-se mais seguro, de ter confiança nas suas faculdades e na sua possibilidade realizadora, que só pode ser motivada pela loucura e pelo sonho. Ou então, o incerto nunca se tornaria certo, o indesvendável descortinado e a ignorância eliminada.
Eis o homem, indivíduo; o homem, nação; o homem, humanidade, que sonha! E que por crer, torna tudo possível.

Portugais em Portugal

Coexistem em Portugal três espécies de português. Cada um com o seu Portugal ansioso por se cumprir. Portanto, dentro do mesmo Portugal, se preferirem, existem três espécies de Portugal.
Um, é por primazia, o composto por portugueses típicos. Daqueles que definem uma nacionalidade. O retornado que voltou de África e que, de quando em vez, dá pontapés nos caixotes; O maluco do costume que mete uns copos ao bucho; A mulher do maluco do costume, que apanha estalos, sem motivo, ou antes, conforme o que o hálito do vinho lhe elucida; Na serra, o pastor com mais rugas no lado dos olhos do que no lado da boca; As crianças, essas continuam felizes. Mais do que a mãe que se persigna, estendida sobre a beira da cama: o marido nas obras, a filha e o genro desempregados, três netos e um subsídio de desemprego enterrado. Este português encontra-se, desde sempre, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe, porque existe, e é por isso que a nação existe também.
Outro é o Portugal que o não é. Que padece numa digressão longuíssima de imitação de mentalidades estrangeiras. Esta invasão agravou-se com a moda parisiense e berlinense e tornou-se completa com a célebre frase de Sócrates "só sei que nada sei". Este Portugal é formado pela grande parte das classes superiores: os príncipes do povo, os príncipes na vida. E são eles que governam o país. Este Portugal está completamente divorciado do país que governa. Com isto, é por sua vontade, justo e corajoso. E contra sua vontade, um grandessíssimo filho da p***.
Eis o terceiro Portugal, descendente de um sonho, herdeiro da loucura, vivo pela crença. Este Portugal fez as Descobertas e construiu o Mundo. E adormeceu em Alcácer Quibir. Porém, deixou alguns parentes, que têm estado sempre, e que continuam estando, à espera que acorde. A fé, cumpre aquilo que o crente espera encontrar nela. No entanto, não oferece o mínimo fundamento para uma verdade objectiva e concretizável. Aqui, o terceiro Portugal caminha em duas vertentes: os que querem alcançar a paz e a felicidade, crêem; os que querem ser testemunhos da verdade, buscam-na.

Nepotismo, benesses e tachos

Há por aqui muita gente que, um quanto ou quanto à boleia da crise, em vez de serem cidadãos, têm sido os principais aliados do medo. E é este medo, por consequência, o principal aliado do Governo. Conjuntura esta, que por definição e contexto, deveria naturalmente repartir as dificuldades; promover uma educação de alta exigência ética face aos sacrifícios que estão a ser exigidos à maioria da população; auto-propulsionar-se ao crescimento e à competitividade com, exactamente a mesma prodigiosa imaginação com que inventa impostos e os destrói, sem remorsos; acusar os corruptos, os hipócritas com o drama que a mesma situação exige. O progresso humano, incluindo o desenvolvimento económico, não se justifica apenas como um mero produto de melhores índices de acesso dos séniores ao ensino, maiores audiências de telenovelas ou, e ainda, no mesmo plano, de maiores índices de pensantes baratos que reflectem sobre o bem-estar económico de cada um, sobre o facto de o homem distinguir o bem do mal - e que doçura que é pensar! Reparem que isto é só parcialmente verdadeiro, o homem prova a sua inferioridade moral quando efectivamente pratica actos tão animalescos como as outras criaturas, que ao contrário de nós, não possuem superioridade intelectual. Portanto, esta ideia do "nem tudo é tão mau quanto parece" é ridícula e contraproducente. "A esperteza, a duplicidade, a ficção, os artifícios, a política e os actos mundanos são o nosso próprio inferno". Ataca os fracos, favorece os amigos e eis os representantes deste país a apelar à sensatez, com o bombardeamento de discursos mais depressivos de que há memória. Discurso este que não é normal nem natural, mas sim cínico e um ultraje à dignidade das pessoas, porque não é um discurso de verdade que se sublinha, mas sim um subtil ataque, que obedece a uma estratégia conveniente de nepotismo, benesses e tachos.
Entendo o egoísmo, porque da mesma forma que é humano amar o dinheiro, é naturalmente humano viver ao serviço dos nossos próprios interesses. E esta é a verdade absoluta e vigente. Entendo também a tristeza, o medo, e até mesmo o desejo de suicídio. Não só porque o sentimos, como também porque já nos habituámos a senti-lo, e pior, a querer efectivamente sentir os valores que inspiram este mesmo estado. Agora, não entendo a amargura, o azedume, a avidez. Nem a antipatia, nem a inveja, nem a vaidade. Se somos tão egoístas como sei que somos, expliquem-me esta necessidade de papas e de fraldas?! O meu espanto é diante destas criaturas amargas. São vidas pequeninas que eu não compreendo - a profunda solidão das pessoas.
Porquê não termos, já que somos egoístas, o nosso próprio tom, o nosso modo, uma forma que não devesse nada a ninguém, e em que as vozes alheias não entrassem na nossa?
As primeiras gotas, indiferentes, ingénuas, podem trazer uma tempestade enorme. O sorriso mais desenfreado e mais ridículo pode causar paixões avassaladoras. O dia mais normal e mais rotineiro de todos pode culminar com algo espectacularmente diferente. Mas, o mais importante, é conseguir unir várias pessoas por um só objectivo, por uma só justiça, por um só fio de esperança. Olhamos uma estrela cadente, mas nem sempre pensamos no que ela nos pode dar...
Voltar ao mesmo sítio depois de passar precisamente um ano é sentir aquelas pessoas, aquela música na rádio, aquela piada, aqueles sorrisos, aquele primeiro olhar e abraço. É ter curiosidade em saber quem serão os próximos rostos e os próximos passos, o próximo sucesso, a próxima derrota. Agora que nos precipitamos para um novo ano, deixo-me de cinismos relativamente à felicidade que este nos trará, porque bem sabemos as dificuldades que temos. Mas o homem não se reduz a isso. Há uma felicidade maior, a suprema, que só por a buscarmos se torna real. Não vamos lá com juras, promessas, arrependimentos, não vamos lá com diminutivos, nem com mimosas palavras. Ajam, ajam deveras com o coração para que quando houver necessidade, já não sejam precisas juras, porque o sim e o não bastam. Acontece que como homens somos naturalmente humanos, mas também naturalmente divinos, e todos os os dias são parte de uma história, não deixem que alguém a conclua à noite aos enfermos, porque cada dia da vossa vida é um bocado da vossa história, e ninguém a pode contar toda. Era uma vez tu.
Não se trata só de sermos bons, conscientes, justos, moralmente correctos e outras possíveis proezas semelhantes. Não vamos contudo supor que o peso desta convenção não é suficiente, no entanto o grande objectivo é não imitarmos modelos. Tu és o arquétipo de ti mesmo, o protocolo, único e singular. Trata-se, portanto, de superar os modelos. Aprender com eles para os ultrapassar. Claro que a esta mentalidade se parece arrastar um egoísmo próprio, numa altivez e auto-afirmação ditada especificamente por cada um de nós. Contudo, importa reconhecer que só o querermos ser melhores (no sentido etimológico da palavra) pode justificar e evidenciar a confiança do homem em si próprio, nas suas possibilidades inventivas, na capacidade de desfazer ilusões inibitórias e teias de ignorância. Todavia, não é um ser por excelência que fará a diferença, nem sequer o mais ilustre. O ideal humano é o retrato de um esforço individual para uma mesma questão fulcral. Esta é a minha fé, a fé no homem. E por isso, procuro representar a crença no valor do mérito e do esforço - a fé na acção do homem. Não obstante, poucos chegam a atingir esta visão, que em teoria, até nos aparece como algo acessível a todos. O homem que rasuramos torna-se muitas vezes uma figura solitária, encarnando um tópico humanista de desprezo pela vulgata, isolando-se, hesitantemente. Não há dúvida que cheguei a uma contradição, o problema afigura-se-me: Identifico-me com a substância que escrevi até então, como com as dúvidas sobre os valores que inspiram a mesma. A mais pura das verdades é que não há uma recompensa, com um sabor de plenitude, compensando as misérias e sacrifícios. Isto é, aqueles que realizam uma obra notável no plano da realidade e que se sacrificaram pela verdade ficam confinados a um plano real profundamente decepcionante, ingrato e injusto. Na realidade, a mais pura, nua e crua verdade é que somos humanos.
terei muito que dizer entre uma chávena de chá e outra. direi: que talvez comece a escrever um livro ou que vou começar a economizar dinheiro para comprar uma máquina fotográfica nova, ou ainda, que planejo conhecer Roma no mês de Julho. poderei contar-te os meus dias de chuva e de jazz, as leituras que fiz ou os filmes a que assisti. repetir-te-ei o relato do meu cansaço, das crises de impaciência e o meu mau humor que de vez em quando se exalta. enquanto tu estarás distraído, nos teus próprios planos, a devanear a tua história. esperarei, inutilmente, que me prometas tempo para que as coisas aconteçam. dirás coisas tuas, nomes teus, organizando os factos passados numa cadeia de tempo. acompanhar-te-ei, sorrirei e demonstrarei um mínimo de interesse por isso. abrirei mão de falar de coisas minhas, observarei cada palavra e cada gesto teu. sentirás fome, comeremos e discutiremos política. terei opiniões, e concordarei com os teus gostos por partilharmos os mesmos, imaginarei como escrever sobre os teus olhos de-cor-indecifrável, os teus sonhos e sobre as tuas pequenas manias. provocarei o silêncio, perceberás que estás a errar, ou talvez a tentar consertar algumas falhas do passado. estarás em outro ritmo, numa velocidade maior, numa ânsia de testar a liberdade. e nisso eu não te poderei seguir. irás cansar-te de mim. me deixarás. e eu voltarei a tomar insistentemente o meu chá, a sonhar, a acalentar pensamentos, sozinha como sempre estive.